A história do Santos na Libertadores de 2011 é uma daquelas campanhas que parecem ter sido escritas para o cinema. O time que começou a competição sob desconfiança, acumulando resultados ruins e chegando a correr sério risco de eliminação, terminou levantando a taça no Pacaembu diante de uma multidão.
No caminho, houve troca de treinador, dificuldades na fase de grupos, atuações decisivas de Neymar, a ascensão de Danilo, o talento de Paulo Henrique Ganso, a experiência de Elano e uma semifinal dramática contra o Cerro Porteño.
Na decisão, o adversário também carregava um simbolismo especial: o Peñarol, justamente o clube que o Santos havia derrotado na final de 1962, quando conquistou sua primeira Libertadores.
Em 22 de junho de 2011, 48 anos depois da segunda conquista continental, o Santos voltou a vencer os uruguaios e conquistou o tricampeonato da América.
O Santos de 2011: um time de enorme talento
O Santos daquela temporada reunia uma geração que já começava a chamar a atenção de todo o futebol mundial.
Neymar era o principal nome. Ainda jovem, o atacante já havia deixado de ser apenas uma promessa e se transformara no grande protagonista do time.
Ao seu lado estavam jogadores como Paulo Henrique Ganso, Elano, Arouca, Danilo, Edu Dracena, Durval, Léo e Rafael.
O elenco também tinha jovens que posteriormente seguiriam caminhos importantes, como Alex Sandro e Felipe Anderson.
Mas a força daquela equipe não estava apenas no talento individual. O Santos tinha jogadores capazes de decidir partidas de maneiras diferentes: Neymar no um contra um, Ganso na criação, Elano nas bolas paradas, Arouca na dinâmica do meio-campo e Danilo aparecendo como elemento surpresa.
Foi essa mistura que permitiu ao Peixe sobreviver a uma campanha que começou muito mal.
Um começo assustador na Libertadores
O Santos entrou na Libertadores como um dos favoritos do Grupo 5, ao lado de Cerro Porteño, Colo-Colo e Deportivo Táchira.
A expectativa era de classificação tranquila.
O que aconteceu em campo, porém, foi completamente diferente.
Na estreia, em 15 de fevereiro, o Santos ficou no 0 a 0 com o Deportivo Táchira, na Venezuela.
Depois, na Vila Belmiro, o time recebeu o Cerro Porteño e novamente decepcionou. O Peixe chegou a abrir vantagem, mas sofreu o empate nos acréscimos e terminou a partida em 1 a 1.
A situação ficou ainda pior na terceira rodada.
Jogando em Santiago, o Santos perdeu para o Colo-Colo por 3 a 2, depois de chegar a abrir vantagem no confronto.
Com apenas dois pontos em três partidas, o tricampeonato parecia cada vez mais distante.
O próprio Santos reconhece que, naquele momento, a equipe precisava praticamente de um milagre para continuar viva na competição.
A primeira grande mudança: Muricy Ramalho
A sequência negativa provocou uma mudança importante.
Adilson Batista deixou o comando do Santos, e Marcelo Martelotte assumiu interinamente.
Depois, chegou Muricy Ramalho.
A troca mudaria completamente o destino da equipe.
Muricy assumiu na reta final da fase de grupos e encontrou um time pressionado, mas ainda com qualidade suficiente para reagir.
O Santos venceu os três jogos restantes:
- Colo-Colo 2 x 3 Santos
- Cerro Porteño 1 x 2 Santos
- Santos 3 x 1 Deportivo Táchira
A reação foi impressionante.
De candidato à eliminação, o Peixe terminou classificado para as oitavas de final. Segundo o próprio Santos, as três vitórias consecutivas sob Muricy foram fundamentais para transformar uma situação praticamente desesperadora em classificação.
A campanha do Santos até o título
A partir das oitavas de final, o Santos passou a jogar com uma maturidade diferente.
Oitavas de final: Santos x América do México
O adversário foi o América do México.
No primeiro jogo, na Vila Belmiro, o Santos venceu por 1 a 0.
Na volta, no México, a equipe segurou o empate sem gols.
América 0 x 0 Santos.
O resultado foi suficiente para colocar o Peixe nas quartas de final.
Quartas de final: Once Caldas
O próximo adversário foi o Once Caldas, da Colômbia.
No primeiro jogo, fora de casa, o Santos conseguiu uma vitória importantíssima:
Once Caldas 0 x 1 Santos.
Na Vila Belmiro, o time empatou por 1 a 1.
Com o empate, o Peixe confirmou sua classificação para a semifinal com vantagem no placar agregado.
Foi mais uma demonstração de maturidade de uma equipe que, poucas semanas antes, parecia estar perto de ser eliminada ainda na fase de grupos.
Semifinal: a batalha contra o Cerro Porteño
Na semifinal, o destino colocou novamente o Cerro Porteño no caminho santista.
Era o mesmo adversário que havia complicado a vida do Peixe na fase de grupos.
Na primeira partida, na Vila Belmiro, o Santos venceu por 1 a 0.
O resultado dava uma pequena vantagem, mas nada estava decidido.
No Paraguai, aconteceu um dos jogos mais emocionantes daquela Libertadores.
O Cerro Porteño chegou a marcar três vezes, mas o Santos respondeu em todas as ocasiões.
O duelo terminou em:
Cerro Porteño 3 x 3 Santos
Com o empate, o Santos garantiu a classificação para a grande final.
O placar agregado terminou 4 a 3 para o Peixe.
A grande final: Santos x Peñarol
O adversário da decisão era o Peñarol, do Uruguai.
E havia uma história especial por trás daquele confronto.
Santos e Peñarol já haviam disputado a final da Libertadores de 1962, quando o clube brasileiro conquistou seu primeiro título continental.
Quase cinco décadas depois, os dois clubes voltavam a decidir a América.
Primeiro jogo: Peñarol 0 x 0 Santos
A primeira partida aconteceu em Montevidéu.
O Santos adotou uma postura mais cautelosa e conseguiu sair do Uruguai com um 0 a 0.
O resultado deixava a decisão completamente aberta.
A taça seria decidida em São Paulo.
22 de junho de 2011: a noite do tricampeonato
O Pacaembu recebeu 37.894 pagantes para a grande decisão.
O Santos precisava vencer.
E não demorou para o principal jogador aparecer.
Santos 1 x 0 Peñarol
Logo no início do segundo tempo, Neymar recebeu dentro da área e abriu o placar.
O gol explodiu o Pacaembu.
O Peixe estava a poucos minutos de conquistar a América.
Pouco depois, aos 23 minutos da segunda etapa, veio o segundo golpe.
Danilo marcou e colocou o Santos em vantagem por 2 a 0.
O Peñarol ainda conseguiu diminuir aos 34 minutos, em gol contra de Durval.
Mas o Santos resistiu até o fim.
O placar terminou:
Santos 2 x 1 Peñarol
O Peixe era novamente campeão da Libertadores.
Neymar: o grande protagonista
Se havia um jogador que simbolizava aquele Santos, era Neymar.
O atacante terminou a Libertadores de 2011 como artilheiro santista, com seis gols.
Ele foi seguido por:
| Jogador | Gols |
|---|---|
| Neymar | 6 |
| Danilo | 4 |
| Elano | 3 |
| Maikon Leite | 1 |
| Jonathan | 1 |
| Ganso | 1 |
| Alan Patrick | 1 |
| Zé Eduardo | 1 |
| Edu Dracena | 1 |
| Barreto (contra) | 1 |
Os números são registrados pelo próprio Santos e também por levantamentos da imprensa esportiva.
O gol de Neymar na final foi a cereja do bolo de uma campanha que ajudou a transformar o jovem atacante em uma das maiores estrelas do futebol mundial.
Danilo: de lateral a herói da final
Outro personagem fundamental foi Danilo.
O lateral-direito não apenas participou de todos os 14 jogos da campanha, como terminou como o segundo maior goleador santista na competição, com quatro gols.
E o mais importante deles aconteceu justamente na final.
O gol que fez o Santos abrir 2 a 0 contra o Peñarol praticamente encaminhou o título.
Danilo ainda era muito jovem, mas aquela Libertadores ajudou a projetá-lo para o futebol europeu. Pouco depois, ele seguiria para o FC Porto, onde continuaria sua carreira internacional.
Ganso: o talento que não conseguiu disputar tudo
Se Neymar foi o grande protagonista, Paulo Henrique Ganso representava o talento criativo daquela geração.
O meia tinha uma capacidade técnica impressionante e era responsável por organizar boa parte das jogadas ofensivas do Santos.
Mas uma lesão na coxa limitou sua participação na competição.
Ganso disputou apenas sete dos 14 jogos do Santos na Libertadores de 2011.
Mesmo assim, deixou sua marca e terminou a campanha com um gol.
Sua ausência durante parte importante da competição foi uma das grandes frustrações para o Santos, que poderia ter contado ainda mais com sua criatividade.
Muricy Ramalho: o treinador que mudou tudo
Talvez nenhum personagem tenha sido mais importante para a transformação do Santos do que Muricy Ramalho.
O treinador não começou a competição no comando.
Quando chegou, encontrou um time pressionado e com apenas dois pontos nas três primeiras partidas.
A partir daí, o Santos venceu os três jogos restantes da fase de grupos e avançou.
Muricy também foi fundamental no mata-mata, dando ao time uma estrutura mais equilibrada e competitiva.
O Santos terminou a Libertadores com 14 partidas, sete vitórias, seis empates e apenas uma derrota, marcando 20 gols e sofrendo 13.
As grandes surpresas da campanha
1. A reação na fase de grupos
Sem dúvida, a maior surpresa foi o próprio Santos ter conseguido se recuperar.
Depois de três rodadas, o time tinha apenas dois pontos.
A classificação parecia improvável.
Mas as três vitórias consecutivas mudaram completamente o cenário.
2. Danilo decisivo
Danilo não era tratado como a principal estrela daquele elenco.
Ainda assim, terminou com quatro gols e marcou na final.
Foi uma das grandes surpresas positivas da campanha.
3. O empate em 3 a 3 contra o Cerro Porteño
A semifinal contra o Cerro Porteño produziu uma das partidas mais emocionantes do torneio.
O Santos marcou três vezes fora de casa e resistiu à pressão paraguaia para garantir a classificação.
As decepções do Santos em 2011
Nem tudo foi perfeito.
O início desastroso
O principal ponto negativo foi o começo da Libertadores.
Um empate fora de casa contra o Táchira poderia ser considerado aceitável, mas o empate em casa contra o Cerro Porteño e a derrota para o Colo-Colo colocaram o Santos em situação complicada.
O time precisava reagir rapidamente.
A lesão de Ganso
A ausência de Paulo Henrique Ganso durante parte importante da campanha também foi uma grande perda.
A eliminação do Mundial
Depois de conquistar a Libertadores, o Santos ainda tinha outro grande objetivo: o Mundial de Clubes da FIFA, disputado no Japão.
O sonho, porém, terminou de maneira dolorosa.
Na final, o Santos enfrentou o Barcelona de Pep Guardiola, que venceu por 4 a 0.
A equipe catalã dominou completamente a decisão, impedindo que o Santos transformasse o tricampeonato continental em um título mundial.
Os números do Santos na Libertadores de 2011
A campanha completa mostra como o título foi construído:
14 jogos
- 🟢 7 vitórias
- 🟡 6 empates
- 🔴 1 derrota
- ⚽ 20 gols marcados
- 🥅 13 gols sofridos
O único revés aconteceu ainda na fase de grupos, diante do Colo-Colo.
Campanha completa
| Fase | Jogo | Resultado |
|---|---|---|
| Grupos | Deportivo Táchira x Santos | 0–0 |
| Grupos | Santos x Cerro Porteño | 1–1 |
| Grupos | Colo-Colo x Santos | 3–2 |
| Grupos | Santos x Colo-Colo | 3–2 |
| Grupos | Cerro Porteño x Santos | 1–2 |
| Grupos | Santos x Deportivo Táchira | 3–1 |
| Oitavas | Santos x América-MEX | 1–0 |
| Oitavas | América-MEX x Santos | 0–0 |
| Quartas | Once Caldas x Santos | 0–1 |
| Quartas | Santos x Once Caldas | 1–1 |
| Semifinal | Santos x Cerro Porteño | 1–0 |
| Semifinal | Cerro Porteño x Santos | 3–3 |
| Final | Peñarol x Santos | 0–0 |
| Final | Santos x Peñarol | 2–1 |
Os resultados da campanha são confirmados pelos registros históricos do Santos e pela tabela de resultados da competição.
Um título que entrou para a história
O Santos de 2011 não foi campeão apenas porque tinha Neymar.
Foi campeão porque conseguiu sobreviver quando parecia eliminado, encontrou equilíbrio com Muricy Ramalho e cresceu justamente quando a Libertadores entrou em sua fase decisiva.
Neymar foi o craque.
Ganso foi o talento.
Danilo foi a surpresa.
Elano foi experiência.
Arouca deu equilíbrio.
Edu Dracena e Durval sustentaram a defesa.
Rafael apareceu quando foi necessário.
E Muricy Ramalho conseguiu transformar um time irregular em um campeão continental.
A vitória sobre o Peñarol por 2 a 1 no Pacaembu, em 22 de junho de 2011, fechou uma campanha histórica. O Santos conquistava sua terceira Libertadores, repetindo os títulos de 1962 e 1963 e voltando a ocupar um lugar entre os grandes campeões da América.
Mais do que uma conquista, a Libertadores de 2011 marcou o auge de uma geração que tinha Neymar e Ganso como símbolos e que devolveu ao Santos o protagonismo continental.
Foi o retorno do Peixe ao topo da América — quase cinco décadas depois de Pelé, mas com uma nova geração pronta para escrever sua própria história.
Por: Eduardo P. Silva